quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Vou aproveitar o momento de raiva (que espero que não passe) pra dizer que tu foi o maior erro da minha vida, que tu é a coisa mais estranha e ridícula que eu podia ter chamado de "amor". Quero muito, muito, muito que tudo dê errado pra ti. É, porque cansei de passar por cima do meu orgulho e dizer: "feliz aniversário" "feliz natal" "feliz ano novo" "feliz dia dos bobos". F o d a - s e. Feliz morte pra ti, porque pra mim tu tais enterrado e não vai ser musiquinha e cartinha bonitinha nenhuma que vai te tirar de lá. Mais do que nunca, saiba que te odeio com toda a força do mundo. E tudo que tem bonitinho escrito pra ti aqui foi uma grande enganação.. e se algum dia chegares a ler isso, saiba de uma coisa: tu fodeu minha vida, e eu nem me importo porque eu sei que mais cedo ou mais tarde tudo vai voltar em dobro pra ti. Idiota. Parabéns e só pra terminar:
FODA-SE.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

É engraçado como Curitiba parece não ser a mesma de ano passado, na qual eu entrava em um taxi e vomitava rápido:
- rua martin afonso, por favor..
Naquele táxi em que meu estômago embrulhava, esfriava e parecia um borboletário, naquele mesmo, que eu não conseguia conversar com o taxista - por mais simpático e alegre que ele parecesse - pois guardava todos os pensamentos, palavras pra quem hoje é uma lembrança mal escrita no meu diário. É, Curitiba está muito diferente, agora entro no taxi com a certeza de quem ou o que encontrarei será/serão só coisas rápidas, frias - que escapam tão rápido quanto um peixe pescado das nossas mãos.
Acordo com a vontade que o dia acabe, que as coisas passem rápido e que eu volte logo pra casa onde dá pra desfrutar do colinho de mamãe e que possa chorar sem alguém me chamar de infantil, que eu possa usar o telefone quanto quiser e que a casa seja limpa, magicamente limpa.
Não suporto bagunça, mas o pouco tempo que me resta para rever a embriologia/fisiologia animal me impede de ir até a cozinha e lavar aqueles mil pratos, colheres e copos que se amontoam desordenadamente. Diferentemente daquela dedicada e boa moça que eu costumava ser que lavava as suas louças, camisetas, meias, cuecas e até o boxe sujo do banheiro , né?
Prefiro pensar que foi Curitiba quem mudou, prefiro pensar que foi tudo obra do acaso e que minhas atitudes, palavras e textinhos sentimentais como este não ajudaram e nem atrapalharam em nada, que a nossa relação caminhava para um abismo há muito tempo e que tudo que eu fiz foi empurrar mais um pouquinho.
Talvez alguém diga que isto tudo é pura dor de cotovelo, que meu coração está em frangalhos e que eu precise, realmente, de um especialista. Até concordo com esta pessoa que, diga-se de passagem, é minha mãe, mas o que poderei fazer além de concordar? Confesso minha insanidade, confesso que tudo que imagino é difícil demais, tudo que tento parece ser inalcançável demais, sujo demais, brigas demais, choros demais, feridas demais e continuo na mesma pergunta sem resposta, andando em círculos. Consequentemente, concordar com a ridícula resposta que todo mundo me dá ao saber do meu caso, é, bem aquela de " deixa rolar, o que tiver que ser vai ser" e andar por ai com a cabeça erguida fingindo possuir um orgulho e uma boa vontade que só eu sei que é irreal, é tudo que posso fazer
De mais, eu sei que meu telefone não vai tocar, esta esperança ridicula e infantil não tenho mais, e a unica diferença é que o teu também não vai e ficaremos/ficarei aqui estagnada e levando minha vida até algo muito bom acontecer e eu gritar: ha-ha you're SOOOOO last week.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Devagar, é tudo que posso agora. Movimentos pequenos, pequenos passos em direção a estrada longa que abriu-se em frente a mim. Como uma catastrofe ambiental, uma rachadura no meio de uma rocha onde as duas partes se separam, mesmo que seja por alguns centimetros. A verdade é que estes poucos centímetros – que são facilmente despercebidos - logo se transformam em metros, quilometros e é exatamente assim que as coisas funcionam. O tempo passa e leva aquela outra parte para longe sem que ninguém perceba, ninguém além de ti. Analistas, psiquiatras tentarão explicar que todas as pessoas, rochas, matérias, sedimentos, passam por nossas vidas e deixam certas marcas, mas o que difere uma das outras é a maneira como queremos lidar com estes pequenos pedaços de nada.
Nada.
É como olhar para um céu claro e sem nuvens, e tentar adivinhar o que se passa com ele e com o vento. Refletir sobre os fragmentos que por qualquer motivo se ligaram em certo tempo e parecem indestrutiveis, intocaveis, inabaláveis. A decepção é grande quando o estudo mais aprofundado nos revela que rochas são apenas rochas e também estão sujeitas a mudanças que de repente se destroem, se desmancham e somem. E pedaço por pedaço, caco por caco, grãos de areia, tijolos não são suficientes para compensar estes centímetros de nada que nos separam.
Olhar para o lado, sentir uma brisa que por travessura do destino tem o teu cheiro. Tentar pular aqueles centímetros de distância que separam nossas rochas, e outra vez estou aqui tentando ir devagar e não apurar os passos. De mais, tento investigar e delimitar todo este caminho novo pelo qual me obrigo a seguir sem a tua mão nas minhas costas guiando os meus passos perdidos, bêbados. E o resto. O resto é nada.
Eramos um? Eramos dois? Eramos dois em um? Ou nunca fomos? Nada? Nunca fomos nada? Nem uma expressão algébrica, uma função de primeiro grau? Uma agulha perdida no meio do palheiro? Uma vela no meio de um bolo de aniversário de 80 anos? Uma lenha a mais na fogueira de são joão? Nada?
Nada.
E ai, se eu pudesse apagar cada travessão, cada linha, cada frase que formulei, cada pensamento que tive, cada sonho. Mais uma vez, se eu pudesse apagar cada centímetro de sentimento que tenho ao ler o teu nome escrito em qualquer caderno, eu queimaria a borracha com os meus dedos, gastaria todo o corretivo necessário só pra poder passar perto da rua da sua casa e não fraquejar, não encher os olhos d’àgua, não imaginar você. E ai corro para o penhasco - que parece crescer a cada dia e aumenta nossas distancias assim, sem pestanejar - corro e não ha mais nada a fazer, a dizer, a escrever, esperar. Tudo foi embora, todos os sedimentos se esvairam com o vento e se foram. E não restou nada, nada além da vontade de contruir uma ponte e te alcançar. Alcançar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

no more, no more, no more..

Não consegui entender o porquê de o dia ter nascido ensolarado hoje. Porque sempre que acontece alguma catastrofe na minha vida, é dito e certo que o outro dia amanhece cinza, chuvoso ou coisa parecida. E não que não goste, pra falar a verdade amo dias chuvosos, amo a capacidade que eles tem de me deixar nostalgica. Entretanto, hoje o dia amanheceu ensolarado, cheio de cores, cheio de pássaros e borboletas. Por que? Seria este um sinal do céu pra me empurrar pra frente? Pra dizer que não posso desistir agora, que não posso voltar a andar em círculos? É, prefiro pensar assim, que é um jeito sutil de alguém lá em cima me dizer o que fazer. Então eu abri o jornal pra ler meu horóscopo, e dizia: cuidado com a veemência. Que diabos seria isto? Ok, abro o dicionário e lá está, veemente: adj. Impetuoso. Intenso. Mais uma vez, que diabos é este horócopo dizendo pra uma pessoa de áries que ela não pode ser intensa? Droga, agora queria aquele joguinho do teu celular, aquela bola mágica, pra perguntar o que devo fazer, porque ontem ele me ajudou a responder mil perguntas, embora não tenha tido coragem de “seguir o seu primeiro instinto”.
Ao contrário do dia bonito, simpático e espetacular, meu corpo amanheceu com dores pra todos os lados. Dói a cabeça, dói o joelho, dói as costas, dói o nariz, dói o coração, dói os olhos. Pareço ter sofrido um acidente, onde o carro capota e eu teria de ficar em observação por alguns dias. Todo movimento que faço, todo copo d’água que tenho de alcançar pra alguém, todo jornal que tenho que apanhar do chão parecem ser os movimentos mais dolorosos da face da terra, como se eu tivesse feito um mês de academia sem parar pra descansar. E dói, dói demais. Dói como alguém abrindo a sua boca com as duas mãos, para cima e para baixo, quebrando o teu maxilar, dói como alguém fazendo uma cirurgia no coração onde a anestesia não funcionou, é, exatamente assim. Doendo.
Daqui nove anos, a gente disse, daqui nove anos a gente nem vai se conhecer. Daqui nove anos essa minha dor que parece a flecha atravessando o calcanhar de Aquiles vai parecer não ter existido. Mas e ai? Terei de esperar nove anos pra ter coragem de dormir? Terei de esperar nove anos pra ter coragem de dormir e sonhar contigo? Porque, a gente sabe, a gente sabe que não tenho dormido só por medo de sonhar contigo. Então, melhor assim, melhor foi eu dizer que: amanhã não nos conheceremos mais e pronto, fica tudo mais fácil. Não fica? Minha dor, eu posso lidar com a minha dor, todo mundo pode lidar com a sua própria dor. Não pode? É a única coisa que espero.
São 10 horas da manhã e teu carro não está mais na garagem, não sei bem que horas tu saiu, mas acredito que já está longe o suficiente de mim pra que eu não possa correr e dizer que esqueci alguma coisa, que.. seilá, que esqueci meu óculos dentro do teu carro e sabe, não posso viver sem meus óculos. Mas é mentira, é mentira e todo o mundo sabe disto, é a mentira que gostaria de estar contando pra ti, pra te ver mais uma vez, pra me despedir de ti mais uma vez, pra adiar essa dor. Não, não da pra te alcançar. E mesmo se desse, meu bom senso não deixaria correr desse jeito. Porque a partir de hoje era pra, supostamente, não nos conhecermos, eu sei. Então é isso. Então é isso, eu saindo do teu carro e batendo a porta. Então é isso, eu saindo da tua vida sem deixar nenhuma marca, até porque todas as marcas estão em mim, todas as dores e lamentações. Então é isso, ultimos dias de outubro e não entendi nada o que isso quis dizer. Mentira, eu sei sim.. quis dizer: tchau, eu não posso mais achar que um ferro atravessando minha garganta é algo bom, mesmo que seja bonito, bla bla bla, é um ferro na garganta e dói demais. Então é isso, sem “até breve”, sem “a gente se vê”. Adeus. Adeus e adeus.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

[In memorian]



" (...)
Ouvindo-o, Critão fez sinal ao menino que se encontrava mais perto. Este saiu e voltou pouco depois em companhia do encarregado de lhe dar o veneno, que já o trazia espremido na taça. Ao ver o homem, Sócrates perguntou-lhe. E agora, meu caro: já que entendes destas coisas, que precisarei fazer?
Nada mais, respondeu, do que andar depois de beber, até sentires peso nas pernas, e em seguidas deitar-te. Assim o veneno atuará.
Depois dessas palavras, estendeu a Sócrates a taça, que a tomou das mãos dele com toda a tranquilidade, sem o menor tremor nem alteração da cor ou das feições. Mirando por baixo o homem, com aquele seu olhar de touro, perguntou-lhe: Que me dizes? E se eu fizesse uma libação com um pouquinho disto aqui? É permitido ou não?
Só preparamos, Sócrates, respondeu, a quantidade que nos parece suficiente. Compreendo, retrucou. Mas pelo menos é permitido, e até um dever, pedir aos deuses que façam feliz a passagem deste mundo para o outro. É o que peço. Prouvera que me atendam! Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras: Critão, exclamou, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
Assim farei, respondeu Critão, vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo. "

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

(...) O vento que bate em teu rosto, as mãos com os dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que não me olha agora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto mais nu que sempre, à beira-mar, com esse vento a bater e a revolver teus cabelos e pensamentos, e eu sem saber que me envolve agora quando teu olho outra vez escorrega para fora e longe do meu, entre tua testa larga de onde às vezes costuma afastar os cabelos com ambas as mãos, numa mistura de preguiça e sensualidade expostas, e quando teu olho se afasta assim, não sei para onde, talvez para esse mesmo lugar onde te encontravas ontem, à beira do mar aberto, onde não penetro, como não te penetro agora, mas é quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o teu é que te olho detalhado, e nunca saberás quanto e como já conheço cada milímetro da tua pele, esses vincos cada vez mais fundos circundando as sobrancelhas que se erguem súbitas para depois diluírem-se em pêlos cada vez mais ralos, até a região onde os raspas quase sempre mal, e conheço também esses tocos de pêlos duros e secretos, escondidos sob teu lábio inferior, levemente partido ao meio, e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, através de histórias como essa, do mar, das velhas tias, das iniciações, dos exílios, das prisões, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasses quase deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno, veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar por inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que não se debruça sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas histórias longas, das tuas memórias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velha trancadas em seus quartos, balcões abertos sobre ruazinhas onde moças solteiras secam o cabelo, exibindo os peitos, eu tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me têm alimentado ao longo deste tempo e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar enquanto meus dentes penetrando nas veias de tua gargata arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, onde te detenhas mais demorando sobre isso que sou e penses que sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, e depois puxa a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que não digeriste, mas mesmo assim penses que poderias aceitar também meus jogos, esses que não proponho, ah detritos, mas tudo isso é inútil e bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca suja que chamamos com fome e pena de pequenas-esperanças, enquanto definho feito um animal alimentado, apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa espessa turva do mar de que me falaste no começo da tarde que agora vai-se indo devagar atrás das minhas costas, e parado aqui do teu lado, sem que me vejas, lentamente afio as pedras e as facas do fundo das minhas pupilas, para que a noite não me encontre outra vez insone, recomponho sozinho um por um dos teus traços, dos teus pêlos, para que quando esses teus olhos escuros e parados como as águas do mar de inverno na praia onde talvez caminhes ainda, enquanto me adentro em gumes possa rasgar-te até o fundo, para que te arrastes nesse chão que juncamos todos os dias de papéis rabiscados e pontas de cigarro, sangrando e gemendo, a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem sempre sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminado por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno porco que me ilumina e me anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós ou o imenso engano de ti e de mim, nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros, à medida que o dia avança estruturando milímetro a milímetro uma harmonia que só desabará levemente em cada roçar temeroso de olhos ou de peles, os gelos, os vermes roendo os porões que insistimos em manter até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele que recusamos tocar por nojo ou covardia ou paixão tão endemoniada que não suportaria a água benta de seu próprio batismo, e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monocórdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamentes falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba assim nem agora nem aqui.

Á beira do mar aberto @ Caio Fernando Abreu

a ghost in my head



Dias assim, que passei procurando um motivo pra levantar da cama e não encontrei, que a chuva faz um backstage maravilhoso e sinto que pedaços de mim vão embora - pedaços que eu não lembrava mais que existiam. Dias assim que me empurram para bares, bebidas, drogas, desconhecidos, promessas e acabo aqui ao som de uma rádio tocando ao longe, alguma musica ridicula do "se eu pedir você volta??...", parece que todos sabem, parece que o mundo inteiro sabe o que passa aqui dentro, e todo mundo parece querer que me jogue de cabeça nessa ferida, que me chafunde nesse pecado (até meu horóscopo me disse que eu não resistiria, que voltaria de joelhos implorando o amor de volta). São dias assim que acabam comigo, que destroem toda a ponte que eu pensava estar construindo para alcançar o outro lado, pra alcançar a minha liberdade, pra seguir em frente.. tijolo por tijolo, ferro por ferro, com tanto cuidado e de repente, acaba. De repente sinto aquele maldito cheiro e desisto, desisto de pensar que um dia fui feliz sem isso, desisto de querer ser forte e me jogo de joelhos em frente de qualquer besteira, de qualquer esperança falsa que adentra a minha vida.
NÃO MENINA, ACORDA, NÃO É VERDADE, é só um fantasma, é só uma falsa esperança.
São dias assim que me fazem desejar - ao máximo - sair correndo na chuva e me jogar em frente a um caminhão que corre. São dias assim que me fazem acreditar que não existe justiça.
Um beco sem saida, é tudo que posso descrever. Meu céu, meu mar, minha vidinha mais ou menos, minha vontade de ser alguém, qualquer esforço que eu faça parece inutil agora. Eu me perdi, e só deus sabe onde é que fui parar..

HELP ME, I HAVE A GHOST IN MY HEAD.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

That's all folks.

Impulsos. Aqueles que te fazem jogar o carro na direção contrária só pra observar alguma coisa.. alguém. Impulsos são aquelas ideias que passam rápido por sua cabeça e que são controladas, geralmente, por uma parte mais inteligente de você. É como aqueles velhos desenhos animados onde quando alguém tem de tomar alguma decisão, aparecem dois lados: um anjinho e um diabinho. Engraçado, sempre dei mais anteção pro diabinho, sempre fiz as coisas mais extremas e mais complicadas, porque pra mim isto era viver a vida. Certo? Não. Acontece que nossa vida depende de muitos fatores pra seguir seu rumo, e pessoas no meio dela é um dos maiores. Elas sempre te farão freiar ou acelerar mais forte. Hoje a freiada foi tão forte, o acidente foi tão feio, que quebrei meus dentes, acabei com o meu rosto, sangrei todas as veias.. meu coração bateu de um jeito tão diferente, que pude ver a ponta dos meus cabelos criando vida a cada pulso, cada batida. Doei o melhor de mim, melhor da minha alma e do meu corpo com a certeza de que aquela pessoa faria tudo, tudo por mim quando descobrisse que eu era a pessoa da vida dela. Podia demorar, sabe? Podia ter demorado um século, uma eternidade. Mas aquela pessoa aciona o freio de mão bem quando achei que estava tudo bem.. e o carro gira, gira, salta, e eu acabo com os dentes quebrados, os vidros trincados e as mãos na cabeça indignada por não ter visto, por não ter impedido nada disso.
Minha alma parece tão vazia agora, que é como se ela tivesse escapado. E acabou, acabou. As sirenes estão tocando, sei que a ajuda virá de muitos lugares. Mas aquela pessoa, aquela mão acionando o freio de mão, aquele complemento, morreu. Morreu e não há mais nada que ninguém possa fazer.

domingo, 20 de setembro de 2009

Nunca me conformei com o fim de nada. Por mais que eu sentisse que era a hora. Por mais que eu quisesse ou precisasse me livrar das coisas. O “acabou” sempre chega ou chegou como se eu jamais tivesse parado pra pensar nele. Cruel, terrível e doloroso além de mim. O último dia em qualquer coisa que tenha durado tempo suficiente pra me fazer dormir sorrindo com o dia seguinte. Um emprego, um curso, uma casa, uma viagem especial, um relacionamento. O ultimo dia do ano. Sempre tristes, sempre cheios de momentos em que eu preciso me isolar e ficar de um quase desespero catatônico. Uma vontade de sair correndo sem me mexer. Um pavor calmo e, pra quem nada entende de espasmos assustados, até sorridente. Abaixar e abrandar tudo em mim que ainda se debate pra continuar onde estava. Subindo loucos para a minha testa, todos eles. Mas quem são esses eles que sobem pra minha testa? Um mal estar em velar a vida que acabou pra poder continuar. Uma mistura caótica de enterro com nascimento, tipo se apaixonar. Dez pra meia noite meus amigos já estão um pouco bêbados e os fogos começam nas praias próximas. A praia em frente a casa está linda e o teto cheio de bexigas brancas. Meus amigos cheiram bem. Digo, por causa do banho. Eu sumo. Desapareço. E começam as piadinhas “deixa, ela é assim mesmo”. Uma coisa horrorosa me assusta e eu quero algo que não é nem a minha mãe e nem a minha cama e nem a minha casa. Olho meu carro na garagem da casa e tenho um segundo de alívio. Ainda existe ir embora. Mas da onde? Eu sempre querendo ir embora. Mas pra onde? Quero um colo e um quente e um ombro que nunca conheci. Não é de homem, de amor, de força. O que é isso? Um enjoado que não faz passar mal. Um frio que não precisa de agasalho. Uma necessidade absurda de ir para um lugar que eu nem imagino qual seja. Uma saudade de vida inteira como se eu já tivesse vivido. Uma coisa enorme e ao mesmo tempo concentrada naquela picadinha de inseto atrás do meu joelho que incha e incomoda do tamanho do mundo. Uma angústia que estremece até aqueles cantos da gente que a gente passa batido. Uma coisa de cantos e não de peitos. Mas que acaba com o oxigênio.

sábado, 12 de setembro de 2009

"A gente procura um amor que dure o mais possível. Procura, procura, talvez tu ache. Para mim é horrível eu aceitar o fato de que eu tô em disponibilidade afetiva. Esse espaço entre dois encontros pode esmagar completamente uma pessoa. Por isso eu acho que a gente se engana, às vezes. Aparece uma pessoa qualquer e então tu vai e inventa uma coisa que na realidade não é. E tu vai vivendo aquilo, porque não agüenta o fato de estar sozinho."

@ Eu me sinto super feliz quando encontro uma pessoa tão confusa quanto eu - Caio Fernando Abreu

Nesse momento me vejo sendo guiada por um fotógrafo invisível - que nem ao menos sabe o meu nome - e decide revelar seus negativos exatamente no instante em que faço a escolha de confiar que a realidade é um princípio necessário para a minha saúde mental.
Fantasias são mais atraentes do que realidades, disso não tenho a menor duvida, pois tudo se torna mais simples e bonito, mais antingível. Meu relato é que em minha fantasia, tudo acontece. Em minha fantasia você acorda com a certeza de que está fazendo tudo de maneira ridícula, patética e errada, corre pra mim com os braços abertos ultrapassando comentas para ter certeza de que quando chegar não será tardio demais. E nunca é. Não tenho mais certeza de que um dia será, de que um dia o sol deixará de brilhar toda a vez que pensar em teu nome, que meu pêlos deixarão de arrepiar toda vez que ouvir o seu "alô, como é que você anda?". O meu esperar tornou-se maior do que tudo que acredito, tudo que penso e sinto. Minha realidade não faz mais sentido algum, minha realidade tem sido desejar que nossos encontros sem pontos finais continuem pelo resto da minha fatídica vida. Não consigo imaginar a realidade sem as fantasias e tudo já está confuso outra vez.
De todos os meus pedidos tenho a certeza de quatro: quero evoluir, quero fugir e quero correr, porque essas são as necessidades mais básicas no meu calendário hoje. Mas o quarto, por favor, é o que mais me acrescenta: quando o ano novo chegar alguém faça com que o ecoar daquela câmera apodreça e que esse fotógrafo perverso dê as caras de uma vez, ou que então desapareça.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Não estou interessada em ser um clichê. Contar uma história triste pra que os homens sintam-se culpados por já terem feito, essa coisa de deixar coraçoes aos pedaços e nem que as milhares de mulheres, não dotadas de uma boa e grande auto estima, se identifiquem com minha dor. Não pretendo ser um paradoxo, dizendo que tudo que senti foi diferente de todos os maravilhosos romances de Shakespeare. Tão pouco esclarecerei o que é o amor e o que ele faz com nossas cabeças e sentidos, até porque se eu tivesse tido a resposta para essas perguntas, certamente, não estaria me preocupando em tentar colocar nesse papel a maldita dor que parece contrair e esticar todas as células do meu corpo em um ritmo desagradável.
Hoje sou só uma garota sozinha em um bar, me deixando seduzir por essas bebidas, o suficiente para amanhã dar a desculpa amarela-rosa-roxa-vermelha ao meu próprio ego. A velha desculpa de que foi a bebida quem escreveu as mensagens, que foi ela quem deixou a mensagem suicida naquela maldita caixa postal, que foi ela quem discou o seu número pelo menos quinze vezes. Não lido mais bem com as coisas e qualquer cheiro, gosto, vontade. Qualquer rastro de memória minha fica atrelada a você em um laço firme que parece ferro, até cheira a ferro, e dói como ferro transgridindo as minhas células, veias e tudo mais. Pareço um detetive a procura de qualquer sinal seu, qualquer palavra que eu talvez tenha pronunciado em momento impróprio, qualquer erro. E pensando bem, o erro é todo meu. Infringi todas as minhas leis, desafiei todos meus limites. Fiz promessas, assoprei velas, contei estrelas, colhi trevos, parei de fumar, cruzei os dedos toda vez que vi um fusca azul, coloquei sal grosso em todos os cantos da casa. E pra que? Estou no mesmo lugar que lembro ter me visto no ultimo ano, não evolui nem um centímetro para frente ou para tras. Tudo que digo não tem mais nexo, tudo que eu acreditava foi embora com o vento. E todos os namorados que tive tinham sempre o mesmo problema: eles não eram você e isso acabava rapidamente com qualquer coisa.
Você foi embora e nada posso eu fazer pra me livrar desse pesadelo que é acordar todo dia e cheirar o travesseiro, desesperadamente, pra tentar sentir o cheiro do teu cabelo. Não consigo me livrar da boa sensação que sinto toda vez que paro em frente a uma feira e encontro lá uma banca de pimentões verdes. Procuro motivos para manter vivo em mim cada momento que te vi, cada momento que estive contigo, e meus motivos parecem muito concretos. Concretos o suficiente para me fazerem sair correndo na chuva só pra talvez te ver de longe, só pra talvez te ver quebrando meu coração de novo. Você ainda é o meu maldito sonho de todas as noites e nada que eu tente, mesmo que arduamente, vai fazer com que isso mude.

domingo, 16 de agosto de 2009



(meu céu hoje)

Se você tivesse aparecido esta droga de existência se mudaria em vivereu coração (traído) bandido, canção blake de experiênciarevelaria seu ser. Leste de Éden violência e abandono.Vinhas de ira...Ah! Quanto suicídio, garotos no esgoto...São ratos? São homenssuave e a noite? Seremos vencidos? Oh! Cara onde o galo canta ai janta e assim. Pegar carona nesta decadência e o fim como pode acontecer?

se você tivesse aparecido @ belchior

sábado, 15 de agosto de 2009



Chorei por três horas, dormi por dois dias. Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita mais em nada. Olhar, quando já não se acredita no que vê. E não sentir dor nem medo, porque atingiram seu limete.

Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento,perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional...


carlos drummond de andrade

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Love is old, love is new, love is all, love is you..



Chuck & Ned. <33333333333333

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Amei e confiei minha vida toda em pessoas que só me trairam, e minha vida está destruída miseravelmente. Não há mais belos cavalos e belas damas em minha porta, mas dou um sorriso forçado, para entender que minha ambição foi maior que meu talento.

profissão de risco @ johnny depp - cena final

quarta-feira, 12 de agosto de 2009




She lay as though she were in a trance with her long eyelashes fluttering like she was dreaming. She said to him "I lie beyond the sea".
And then all of a sudden her head dipped back and she vanished. Gone gone without a trace. Gone!
She's never coming back do you know what it's like to live with that? No one knows what it's like. The only one who knew me gone.

frail limb nursery- slipknot
-Vou te dizer o que eu nunca te disse antes, talvez seja isso o que está faltando: ter dito. Se eu não disse, não foi por avareza de dizer, nem por minha mudez de barata que tem mais olhos que boca. Se eu não disse é porque não sabia que sabia - mas agora sei. Vou te dizer que eu te amo. Sei que te disse isso antes, e que também era verdade quando te disse, mas é que só agora estou realmente dizendo. Estou precisando dizer antes que eu... Oh mas é a barata que vai morrer, não eu! não preciso desta carta de condenado numa cela... Não, não quero te dar o susto do meu amor. Se te assustares comigo, eu me assustarei comigo. Não tenhas medo da dor. Tenho agora tanta certeza assim como a certeza de que naquele quarto eu estava viva e a barata estava viva: tenho a certeza disto: de que as coisas todas se passam acima ou abaixo da dor. A dor não é o nome verdadeiro disso que a gente chama de dor. Ouve: estou tendo a certeza disso.

clarice lispector - a paixão segundo gh @ página 5
Como se não bastasse ter perdido os dois braços, insistiram em amputar minhas pernas. O alívio que isso me dá, a única não-parte boa disso é saber que desse jeito não tenho mais nada pra perder. Tudo que era vital, tudo que era necessário ter pra seguir em frente, tudo foi tirado.
E se hoje eu não dormir, não vá pensar que meu cansaço ajuda, que minha vontade de voltar andar e nadar alivía coisa alguma.
Logo eu, que não suporto nada.

É difícil gostar de alguém que, não somente vê as cores, mas fala sobre elas. Suponho que perder isso me fez ver o horizonte de um outro jeito. E hoje, o horizonte está cinza. Não dormi esperando que a alegria do nascer do sol aliviasse alguma coisa, e o babaca nem apareceu.
Aprender que cinza também é uma cor, que tem suas vantagens, parece mais difícil do que resolver a solução de f(x)= x² - 728 n-2 (que eu realmente nem sei por onde começar).
Voltar a respirar talvez seja uma grande coisa, e saber que pelas minhas narinas estarão passando esse ar pesado e cinza me da uma agonia que eu tenho que suportar, pois respirar é o gesto mais nobre que consigo agora.
Se hoje a chuva vier a derreter tudo que há em meus olhos, saiba que fico grata por não precisar fazer esforço pra não ver alguma scoisas. Cega, sem ponto de vista e sem argumentos (isso faz de mim uma pessoa nova? ).
Não sobra mais nada de mim, não sobra nada da pobre que não sabe diferenciar os tons de azul.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

- Antigamente eu pensava em você assim, sabia? Como o sol. Meu sol particular. Você compensava bem as nuvens para mim.

- Com as nuvens, eu posso lidar. Mas não posso lutar com um eclipse..

Eclipse -Stephenie Meyer


O problemα com os contos de fαdαs é que eles levαm uma garota αo desαpontαmento. Nα vidα reαl, o príncipe foge com α princesα errαdα.. Ou o feitiço αcαbα e os dois αmαntes se dão contα que são melhores como quer que eles sejαm.



bene, addio!



MALDITO VESTIDO. MALDITO DECOTE. MALDITA LEMBRANÇA.
Você é uma maldita esfinge e ninguém quer saber como decifrar-te, vai, devora o que quiser. Ninguém se importa.

Diga quem quer que eu seja e eu serei pra você.

A sensação de não existir, de não pertencer a um grupo, comunidade, facção, partido, ou o que quer que faça de você um humano tomou conta de mim. E eu já não sentia minhas mãos, estava tudo escuro e tudo muito frio.
Hoje sei que essa sensação talvez não passasse de medo.
Há quanto tempo eu já não o sentia, há quanto tempo estavam longe de mim as garras deste demônio gélido capaz de penetrar a minha alma a qualquer instante. Por meses, achei que ele havia me abandonado e penetrado o coração e a alma de outra vivente, entretanto lá estava ele, sorridente - foi gentil e me pediu que horas eram.. e subtamente, sem gentileza alguma, rasgou tudo o que eu tinha, cuidadosamente, curado. Cada ponto feito, cada centímetro de linha utilizada, o demônio rasgou.
Havia deixado de ser quem eu era, minha vida havia sido deixada para trás e em seu lugar estava a esperança de acordar um dia e ver que tudo mudaria, que tudo de se encaixaria. Admiti a insanidade.