quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Como se não bastasse ter perdido os dois braços, insistiram em amputar minhas pernas. O alívio que isso me dá, a única não-parte boa disso é saber que desse jeito não tenho mais nada pra perder. Tudo que era vital, tudo que era necessário ter pra seguir em frente, tudo foi tirado.
E se hoje eu não dormir, não vá pensar que meu cansaço ajuda, que minha vontade de voltar andar e nadar alivía coisa alguma.
Logo eu, que não suporto nada.

É difícil gostar de alguém que, não somente vê as cores, mas fala sobre elas. Suponho que perder isso me fez ver o horizonte de um outro jeito. E hoje, o horizonte está cinza. Não dormi esperando que a alegria do nascer do sol aliviasse alguma coisa, e o babaca nem apareceu.
Aprender que cinza também é uma cor, que tem suas vantagens, parece mais difícil do que resolver a solução de f(x)= x² - 728 n-2 (que eu realmente nem sei por onde começar).
Voltar a respirar talvez seja uma grande coisa, e saber que pelas minhas narinas estarão passando esse ar pesado e cinza me da uma agonia que eu tenho que suportar, pois respirar é o gesto mais nobre que consigo agora.
Se hoje a chuva vier a derreter tudo que há em meus olhos, saiba que fico grata por não precisar fazer esforço pra não ver alguma scoisas. Cega, sem ponto de vista e sem argumentos (isso faz de mim uma pessoa nova? ).
Não sobra mais nada de mim, não sobra nada da pobre que não sabe diferenciar os tons de azul.

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