sexta-feira, 30 de outubro de 2009

no more, no more, no more..

Não consegui entender o porquê de o dia ter nascido ensolarado hoje. Porque sempre que acontece alguma catastrofe na minha vida, é dito e certo que o outro dia amanhece cinza, chuvoso ou coisa parecida. E não que não goste, pra falar a verdade amo dias chuvosos, amo a capacidade que eles tem de me deixar nostalgica. Entretanto, hoje o dia amanheceu ensolarado, cheio de cores, cheio de pássaros e borboletas. Por que? Seria este um sinal do céu pra me empurrar pra frente? Pra dizer que não posso desistir agora, que não posso voltar a andar em círculos? É, prefiro pensar assim, que é um jeito sutil de alguém lá em cima me dizer o que fazer. Então eu abri o jornal pra ler meu horóscopo, e dizia: cuidado com a veemência. Que diabos seria isto? Ok, abro o dicionário e lá está, veemente: adj. Impetuoso. Intenso. Mais uma vez, que diabos é este horócopo dizendo pra uma pessoa de áries que ela não pode ser intensa? Droga, agora queria aquele joguinho do teu celular, aquela bola mágica, pra perguntar o que devo fazer, porque ontem ele me ajudou a responder mil perguntas, embora não tenha tido coragem de “seguir o seu primeiro instinto”.
Ao contrário do dia bonito, simpático e espetacular, meu corpo amanheceu com dores pra todos os lados. Dói a cabeça, dói o joelho, dói as costas, dói o nariz, dói o coração, dói os olhos. Pareço ter sofrido um acidente, onde o carro capota e eu teria de ficar em observação por alguns dias. Todo movimento que faço, todo copo d’água que tenho de alcançar pra alguém, todo jornal que tenho que apanhar do chão parecem ser os movimentos mais dolorosos da face da terra, como se eu tivesse feito um mês de academia sem parar pra descansar. E dói, dói demais. Dói como alguém abrindo a sua boca com as duas mãos, para cima e para baixo, quebrando o teu maxilar, dói como alguém fazendo uma cirurgia no coração onde a anestesia não funcionou, é, exatamente assim. Doendo.
Daqui nove anos, a gente disse, daqui nove anos a gente nem vai se conhecer. Daqui nove anos essa minha dor que parece a flecha atravessando o calcanhar de Aquiles vai parecer não ter existido. Mas e ai? Terei de esperar nove anos pra ter coragem de dormir? Terei de esperar nove anos pra ter coragem de dormir e sonhar contigo? Porque, a gente sabe, a gente sabe que não tenho dormido só por medo de sonhar contigo. Então, melhor assim, melhor foi eu dizer que: amanhã não nos conheceremos mais e pronto, fica tudo mais fácil. Não fica? Minha dor, eu posso lidar com a minha dor, todo mundo pode lidar com a sua própria dor. Não pode? É a única coisa que espero.
São 10 horas da manhã e teu carro não está mais na garagem, não sei bem que horas tu saiu, mas acredito que já está longe o suficiente de mim pra que eu não possa correr e dizer que esqueci alguma coisa, que.. seilá, que esqueci meu óculos dentro do teu carro e sabe, não posso viver sem meus óculos. Mas é mentira, é mentira e todo o mundo sabe disto, é a mentira que gostaria de estar contando pra ti, pra te ver mais uma vez, pra me despedir de ti mais uma vez, pra adiar essa dor. Não, não da pra te alcançar. E mesmo se desse, meu bom senso não deixaria correr desse jeito. Porque a partir de hoje era pra, supostamente, não nos conhecermos, eu sei. Então é isso. Então é isso, eu saindo do teu carro e batendo a porta. Então é isso, eu saindo da tua vida sem deixar nenhuma marca, até porque todas as marcas estão em mim, todas as dores e lamentações. Então é isso, ultimos dias de outubro e não entendi nada o que isso quis dizer. Mentira, eu sei sim.. quis dizer: tchau, eu não posso mais achar que um ferro atravessando minha garganta é algo bom, mesmo que seja bonito, bla bla bla, é um ferro na garganta e dói demais. Então é isso, sem “até breve”, sem “a gente se vê”. Adeus. Adeus e adeus.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

[In memorian]



" (...)
Ouvindo-o, Critão fez sinal ao menino que se encontrava mais perto. Este saiu e voltou pouco depois em companhia do encarregado de lhe dar o veneno, que já o trazia espremido na taça. Ao ver o homem, Sócrates perguntou-lhe. E agora, meu caro: já que entendes destas coisas, que precisarei fazer?
Nada mais, respondeu, do que andar depois de beber, até sentires peso nas pernas, e em seguidas deitar-te. Assim o veneno atuará.
Depois dessas palavras, estendeu a Sócrates a taça, que a tomou das mãos dele com toda a tranquilidade, sem o menor tremor nem alteração da cor ou das feições. Mirando por baixo o homem, com aquele seu olhar de touro, perguntou-lhe: Que me dizes? E se eu fizesse uma libação com um pouquinho disto aqui? É permitido ou não?
Só preparamos, Sócrates, respondeu, a quantidade que nos parece suficiente. Compreendo, retrucou. Mas pelo menos é permitido, e até um dever, pedir aos deuses que façam feliz a passagem deste mundo para o outro. É o que peço. Prouvera que me atendam! Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras: Critão, exclamou, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
Assim farei, respondeu Critão, vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo. "

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

(...) O vento que bate em teu rosto, as mãos com os dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que não me olha agora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto mais nu que sempre, à beira-mar, com esse vento a bater e a revolver teus cabelos e pensamentos, e eu sem saber que me envolve agora quando teu olho outra vez escorrega para fora e longe do meu, entre tua testa larga de onde às vezes costuma afastar os cabelos com ambas as mãos, numa mistura de preguiça e sensualidade expostas, e quando teu olho se afasta assim, não sei para onde, talvez para esse mesmo lugar onde te encontravas ontem, à beira do mar aberto, onde não penetro, como não te penetro agora, mas é quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o teu é que te olho detalhado, e nunca saberás quanto e como já conheço cada milímetro da tua pele, esses vincos cada vez mais fundos circundando as sobrancelhas que se erguem súbitas para depois diluírem-se em pêlos cada vez mais ralos, até a região onde os raspas quase sempre mal, e conheço também esses tocos de pêlos duros e secretos, escondidos sob teu lábio inferior, levemente partido ao meio, e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, através de histórias como essa, do mar, das velhas tias, das iniciações, dos exílios, das prisões, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasses quase deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno, veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar por inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que não se debruça sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas histórias longas, das tuas memórias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velha trancadas em seus quartos, balcões abertos sobre ruazinhas onde moças solteiras secam o cabelo, exibindo os peitos, eu tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me têm alimentado ao longo deste tempo e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar enquanto meus dentes penetrando nas veias de tua gargata arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, onde te detenhas mais demorando sobre isso que sou e penses que sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, e depois puxa a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que não digeriste, mas mesmo assim penses que poderias aceitar também meus jogos, esses que não proponho, ah detritos, mas tudo isso é inútil e bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca suja que chamamos com fome e pena de pequenas-esperanças, enquanto definho feito um animal alimentado, apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa espessa turva do mar de que me falaste no começo da tarde que agora vai-se indo devagar atrás das minhas costas, e parado aqui do teu lado, sem que me vejas, lentamente afio as pedras e as facas do fundo das minhas pupilas, para que a noite não me encontre outra vez insone, recomponho sozinho um por um dos teus traços, dos teus pêlos, para que quando esses teus olhos escuros e parados como as águas do mar de inverno na praia onde talvez caminhes ainda, enquanto me adentro em gumes possa rasgar-te até o fundo, para que te arrastes nesse chão que juncamos todos os dias de papéis rabiscados e pontas de cigarro, sangrando e gemendo, a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem sempre sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminado por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno porco que me ilumina e me anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós ou o imenso engano de ti e de mim, nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros, à medida que o dia avança estruturando milímetro a milímetro uma harmonia que só desabará levemente em cada roçar temeroso de olhos ou de peles, os gelos, os vermes roendo os porões que insistimos em manter até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele que recusamos tocar por nojo ou covardia ou paixão tão endemoniada que não suportaria a água benta de seu próprio batismo, e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monocórdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamentes falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba assim nem agora nem aqui.

Á beira do mar aberto @ Caio Fernando Abreu

a ghost in my head



Dias assim, que passei procurando um motivo pra levantar da cama e não encontrei, que a chuva faz um backstage maravilhoso e sinto que pedaços de mim vão embora - pedaços que eu não lembrava mais que existiam. Dias assim que me empurram para bares, bebidas, drogas, desconhecidos, promessas e acabo aqui ao som de uma rádio tocando ao longe, alguma musica ridicula do "se eu pedir você volta??...", parece que todos sabem, parece que o mundo inteiro sabe o que passa aqui dentro, e todo mundo parece querer que me jogue de cabeça nessa ferida, que me chafunde nesse pecado (até meu horóscopo me disse que eu não resistiria, que voltaria de joelhos implorando o amor de volta). São dias assim que acabam comigo, que destroem toda a ponte que eu pensava estar construindo para alcançar o outro lado, pra alcançar a minha liberdade, pra seguir em frente.. tijolo por tijolo, ferro por ferro, com tanto cuidado e de repente, acaba. De repente sinto aquele maldito cheiro e desisto, desisto de pensar que um dia fui feliz sem isso, desisto de querer ser forte e me jogo de joelhos em frente de qualquer besteira, de qualquer esperança falsa que adentra a minha vida.
NÃO MENINA, ACORDA, NÃO É VERDADE, é só um fantasma, é só uma falsa esperança.
São dias assim que me fazem desejar - ao máximo - sair correndo na chuva e me jogar em frente a um caminhão que corre. São dias assim que me fazem acreditar que não existe justiça.
Um beco sem saida, é tudo que posso descrever. Meu céu, meu mar, minha vidinha mais ou menos, minha vontade de ser alguém, qualquer esforço que eu faça parece inutil agora. Eu me perdi, e só deus sabe onde é que fui parar..

HELP ME, I HAVE A GHOST IN MY HEAD.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

That's all folks.

Impulsos. Aqueles que te fazem jogar o carro na direção contrária só pra observar alguma coisa.. alguém. Impulsos são aquelas ideias que passam rápido por sua cabeça e que são controladas, geralmente, por uma parte mais inteligente de você. É como aqueles velhos desenhos animados onde quando alguém tem de tomar alguma decisão, aparecem dois lados: um anjinho e um diabinho. Engraçado, sempre dei mais anteção pro diabinho, sempre fiz as coisas mais extremas e mais complicadas, porque pra mim isto era viver a vida. Certo? Não. Acontece que nossa vida depende de muitos fatores pra seguir seu rumo, e pessoas no meio dela é um dos maiores. Elas sempre te farão freiar ou acelerar mais forte. Hoje a freiada foi tão forte, o acidente foi tão feio, que quebrei meus dentes, acabei com o meu rosto, sangrei todas as veias.. meu coração bateu de um jeito tão diferente, que pude ver a ponta dos meus cabelos criando vida a cada pulso, cada batida. Doei o melhor de mim, melhor da minha alma e do meu corpo com a certeza de que aquela pessoa faria tudo, tudo por mim quando descobrisse que eu era a pessoa da vida dela. Podia demorar, sabe? Podia ter demorado um século, uma eternidade. Mas aquela pessoa aciona o freio de mão bem quando achei que estava tudo bem.. e o carro gira, gira, salta, e eu acabo com os dentes quebrados, os vidros trincados e as mãos na cabeça indignada por não ter visto, por não ter impedido nada disso.
Minha alma parece tão vazia agora, que é como se ela tivesse escapado. E acabou, acabou. As sirenes estão tocando, sei que a ajuda virá de muitos lugares. Mas aquela pessoa, aquela mão acionando o freio de mão, aquele complemento, morreu. Morreu e não há mais nada que ninguém possa fazer.